domingo, 27 de dezembro de 2009

SINCERICIDA

Sincericídio

Por Ferréz

“Há muito tempo a humanidade deixou a sinceridade de lado. O que temos é opiniões certas guiados por erradas, erradas guiadas por cegas.
Uma pessoa que é sincera vive sozinha ou com um ciclo de amizade restrito. É tida por todas como inconveniente, insatisfeita, crítica, amarga, pensativa demais.
Numa sociedade que vive num mundo fictício (...) ninguém quer ser posto de frente com a realidade.
A pessoa sincera não agüenta conviver com a família muito tempo, não agüenta piadas que na verdade querem dizer outra coisa, não gosta de jogos com palavras, não agüenta cinismo, não tolera mentira, e geralmente não suporta egos inflamados. (...)
A manipulação é tão grande, que, quem se expressa sobre isso, começa a ser chamado de maluco, contestador e mais uma dezena de nomes.”


Este texto do escritor Ferréz foi publicado na Revista Caros Amigos de dezembro/09

E foi lendo o texto acima que fiz uma descoberta importante sobre mim, descobri que não chata ou mal humorada, eu sou sincera. Característica cada vez mais rara.
É mais fácil encontrar pérolas em conchas que pessoas sinceras. E que atire a primeira pedra aquele que nunca se sentiu usado para determinado crescimento ou suprir a necessidade de alguém, e depois deixado de lado como uma meia furada.
Essas pessoas estão por toda parte procurando qual será o novo degrau a ser pisado, o novo alvo conquistado para que elas possam crescer e brilhar, brilhar.

Machado de Assis escreveu o texto “Um Apólogo” que recomendo muito. Há todo tempo estamos sendo agulhas para linhas ordinárias ou escadaria para gente com talento apenas para falsificar emoções e ideais.
Talvez a única forma de se defender disso seja o afastamento, ou continuar suprindo as necessidades dos parasitas ao seu redor, dessa maneira, nós sinceros, evitamos a solidão.

Eu já me senti só muitas vezes, só por não apoiar atitudes que considerava erradas, me retirei de ambientes em que o sistema que imperava ia contra minha consciência de fazer o bem, deixei de lado amigos de infância por não querer seguir junto um caminho de ostentação, falsificação e mentira. E declaro que, continuarei assim, enquanto acreditar que me convém.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

HOMENAGEM ÀS MOSCAS

Eu observo atenta como quem finge que nada vê. Mas eu sei que estão lá e foram apenas pra mostrar sua sandice, a loucura dos cérebros lavados e dos passos contabilizados.

Eles cospem toda vez que passamos. Nos olham como se fossemos porcos selvagens a procura de comida, como se fossemos porcos canibais.
Eles dizem que fomos possuídos por espíritos maus, que não sabemos e nem temos o que dizer.

Mas acontece que ainda assim, eles não sabem se manter longe. Nos rodeiam como moscas ao lixo e olham todo tempo como cães com fome. Talvez eles não passem de moscas. Não passem de cães famintos de vida.

Não têm medo de ser contaminados com o que dizem não prestar? Mas vou confessar que eu tenho, e muito.


“Muito além do jardim, há um mundo muito grande para mim(...)
Muito além do convés, há um mar e um céu pra nós dois.”

( Muito além / Ira)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

NÃO HOJE

Às vezes penso que preciso de terapia ou ser internada mesmo. Tem dias que sinto um aperto tão grande no peito, uma agonia em estar viva que parece sufocar.

Uma agonia que como no poema “nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei porque”.
Esses dias eu chorei só de ver o rosto de uma menina. Era uma menina tão linda, com um rosto tão rosa que fiquei com pena dela por ter que estar viva como eu. Tinha cachinhos negros na cabeça e eles chacoalhavam ao som do mundo.

Me lembro muito bem de quando menina, rolando na cama e chorando muito. Meu irmão com uns 13 anos, sentado no pé da cama, me perguntava o que eu tinha, e eu não soube dizer. Disse que queria minha mãe, mas era mentira.
Eu chorava porque não queria morrer, mas não queria viver. Chorei porque as alternativas eram poucas e pensei ser tão injusto.

Talvez seja o período natalino que trazendo lembranças, vem mexendo com meu emocional. Talvez seja a arte de questionar que cresceu comigo como uma amiga peralta.

Talvez seja o som do choro que não me deixa em paz, o choro que segue ao redor do mundo, daqueles que não têm motivos pra rir. Então, penso eu, não rirei também, não hoje.


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.

Sei que canto.
E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

AMARELAS


Eu estava parada, olhando para o teto. Ouvindo Coldplay e pensando, pensando em tudo.

“Look at the stars, look how they shine for you” (Olhe para as estrelas, vejam como elas brilham para você) dizia a canção.
E realmente, por mais piegas que pareça, elas sempre estarão lá. Há algumas luzes que nunca se apagam.

E tanta coisa eu já vivi de baixo desse mesmo céu, olhando a mesma lua e as estrelas tão amarelas.
A chuva que cai não precisa indicar a tristeza de um novembro chuvoso, ela pode estar dizendo agora que tudo precisa ser lavado e com a água levado para algum lugar tão longe, de perder de vista.

Que onde havia tanto choro pode nascer um sorriso, mesmo que tão amarelo como as estrelas, ainda que sem força e forma. Um sorriso ainda recém nascido.

E quando chegarmos a um ponto em que não suportamos continuar e nem entendemos o porquê disso, quando encararmos uma realidade que não nos permite vislumbrar mudança alguma, as amarelas possam iluminar um novo caminho, onde se possa começar outra vez.

Lembrar que elas brilham ainda, nos mostra que a luz ainda pode superar as trevas. Que ainda faz sentido o caminho com um novo modo de andar, um novo olhar.

E nós sobreviveremos. Não importando o quão doloroso tenha sido, esperançosos por brilharmos como estrelas no céu.


It's true, look how they shine for you!
(É verdade, veja como elas brilham para você)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O SOM DO MEDO


Depois que o grande animal havia varrido cada canto,
Adormeceu com sono pesado.
Então ela, que há muito esperava saltou da gaveta que mal a acomodava.
Caminhou até a janela, a abriu sorrindo com o toque da brisa fresca da madrugada.

O céu não trouxe estrelas aquela noite, e nem o brilho da lua.
Mas ainda sim, ela sorriu.
Olhou a imensidão do infinito e imaginou se em algum lugar por trás daquele horizonte, haveria gente livre.

Enquanto o bicho dormia, ela retirou o pão já embolorado da sacola e comeu.
Chorou de prazer enquanto seu estômago era saciado e enquanto observava as nuvens que aos poucos se carregavam.
E as lagrimas corriam com tanta pressa e o som dos seus sentimentos invadia a cidade alta, chegando à parte mais baixa.

E de repente ele despertou.
E o grunhido iniciou, os gritos enchiam os corredores, ele sabia onde ela estava.
Ela correu para a gaveta onde achou encontrar refúgio.
Ele cada vez mais perto caminhava sobre as patas tão temidas, ensurdecendo com seu gemido estrondoso.
Ela chorou, mas não mais de prazer.
Era mais uma vez o medo arranhando a sua porta.


“Os dias que eu me vejo só
São dias que eu me encontro mais
E mesmo assim eu sei tão bem
existe alguém pra me libertar.”
Los Hermanos/ Condicional

terça-feira, 20 de outubro de 2009

À MINHA DIVINDADE

Se tem um coisa de que o ser humano sempre necessitou e continua necessitando é o desejo de servir a uma divindade. Especialmente se esta lhe oferece algo em troca de sua servidão.

Em séculos de evolução muitos nomes já foram exaltados, muitos altares levantados e sobre eles entregues o tudo ou o quase tudo de seus fiéis.

Neste século frio e nesta sociedade capitalista e individualista, um novo deus emerge com olhar gélido das profundezas de cada ser. O EU.
Nós somos os nossos próprios deuses, e eles, habitantes de nosso interior têm sede e fome. E trabalhamos pelo nosso prazer e a melhor oferta que damos é a satisfação pessoal. O nosso desejo é uma ordem.

E com essa vontade de crescer diante desses deuses nós pisoteamos e esmagamos o outro. Comercializando sentimentos, plastificando relações, orando para nós mesmos, justificando através de nossa adoração o mal que fazemos.

E em nosso nome, negamos à existência de um ser superior a nós. Porque tememos dar satisfação de nossas atitudes ao encontrá-Lo. Porque odiamos Sua concorrência.

E recitamos todas as noites: “Que seja feita a nossa vontade. Amém.”
E exploramos, humilhamos em ode à nossa divindade.


“Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.” Marcos 10:45

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

SOU DELA

Ela estava no velho que andava no meio da rua ignorando a calçada.
Ela vinha sorrindo na boca sem destes de uma criança, na lágrima que não caiu no olhar da mãe.
Eu a vi sentada na praça enquanto todos corriam na direção contrária.

Ontem olhei para o céu carregado de nuvens escuras e a vi, me disseram que estava vendo demais, mas isso sempre foi fato.
Estava no mar que me disseram ser assustador. E o que não é?
Sempre que a vejo dizem que enlouqueci. E quem não enlouquece quando a vê?

No grupo de mulheres conversando na esquina, na garrafa de água que eu segurei.
Na música que ouvi com a TV ligada.
No animal que passou por mim e nem olhou.

Sempre que a vejo alguma coisa muda
Vira no avesso
Me arrebata e transtorna tanto quanto uma vertigem.
Eu era e já não sou
Senti e já mudei
Chorei, mas esqueci.

Espero que ela me acorde todas as manhãs com o nascer do sol
Que ela acalente os meus sonhos.
Espero enxergá-la enquanto for viva.
Porque quando eu não for, não me separarei mais
Serei dela, serei só ela...
Poesia enfim.

"..Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável. Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo..."

(Clarice Lispector /A Paixão Segundo GH)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

DO CÉU

O céu trocou de cor à meia noite
Transformou-se em áspero e escuro tom
Configurou estrelas em versos
Longitude em acesso e tudo para ela.
Jurou por amor transformar-se em tarde ensolarada
A um pedido que fosse, da menina
Que cândida e calada observava da janela
O caso que o céu lhe propunha.

E transtornada e taciturna
Fechou a veneziana e com força correu
Escondeu-se no fundo dos lençóis e tímida se atreveu
A imaginar que no outro dia
Se pentearia, pintaria.
Ele com certeza lá estaria, então a veria e entregaria
Do sol todo brilho, da nuvem todo o branco.

Enquanto isso o amante intocável permaneceu no alto
E escureceu
Emudeceu
Choveu.

sábado, 10 de outubro de 2009

PRA MAIS TARDE

Mais tarde quero vê-lo enquanto dorme
Pra saber que faz com o ar que te dei.
Quando as luzes apagarem e o vento se calar
Vou passar por lá observando
Como você vive sem o som dos meus murmúrios
Sem o ronco do meu medo.

Quando tudo for noite e breu
Viajo e sinto o tempo que deixei, o sonho que colhi
E que hoje carrego em busca de um peito que ao aceite
Que o leve a sério
Que adormeça neste mistério

Quero saber a quantas anda as mentiras que te devolvi
Já que eram demais e não couberam em minha caixa
Será que cuida delas? Ou as fez voar como antes?
Delas eu me lembro, brincando de corda e bambolê
Acenando pra mim com um gesto intrépido e seco.

Um momento chegará em que visitarei o seu sono
Espiarei dentro do corpo o que ficou ali além do que era meu
Do pouco que dei, o tudo que tinha.
Hoje já não sei em que terreno baldio abandonei o que senti
Em que palavras ásperas perdi o que roubei de você.

Mas quando for o tempo você se lembrará
Que todas as coisas que me deu foram contra a minha vontade
E o único bem que exigi, me foi negado
uma colher de paz e uma pitada do honesto.

Eu que nunca pedi muito
Só recebi o que não quis, o que não fazia diferença
E quando peso as flores de plástico me sinto ainda mais só
Cheia de coisas
E sem nenhuma palavra pra rir ou pra chorar
Sem nada que me ilumine e me diga que já é dia.



(um pouco de cor pra assustar a dor
Que pousou no meu braço ocupando o espaço
Que imaginei um dia ser seu)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

LONGE

Eu peço a Ele que me salve disso tudo
Que com um sopro Ele invada, e rompa
E me arremesse pra fora.

Me permita navegar pra longe dessas mãos que só pedem
Desses olhos que nem piscam
E dessas bocas que maldizem.

Eu quero correr e só parar quando for distante
Das pessoas que não se importam
Que apenas querem, mentem e ferem.

Eu grito pra Ele e espero pelo dia
Que serei livre
Que serei sonho, que serei Sua
Quero dormir hoje e acordar no lugar chamado Longe

domingo, 4 de outubro de 2009

AI DE MIM QUE NÃO SOU ASSIM, ROMÂNTICA.

“É pensando nos homens que eu perdôo aos tigres as garras que dilaceram.”
Florbela Espanca

Acho que as pessoas que acompanham meu blog e não me conhecem muito bem, devem achar que sou uma pessoa frustrada, mal amada e meio revoltada com o sexo oposto ao meu. Rá.
Então vou assumir aqui, que eu sou quase tudo isso mesmo.

Outro dia, deixei o pessoal da vã meio escandalizado quando disse que meu sonho era ser romântica. Romântica do tipo que chora de solidão, que se emociona com flores e que sempre acredita que tudo aquilo que a pessoa disse é a mais pura verdade.
Eu exagerei quando disse isso, eu não sonho em ser assim. Mas considerando que quase todas minhas amigas estão noivas ou chegando lá, pelo menos as que não estão, pensão em estar um dia. E eu continuo naquela mesmice toda, acredito que deve estar na hora de começar a acreditar nas pessoas. Poxa! Minha mãe já me falou 20 vezes que na minha idade, já esperava meu irmão nascer.

Não que eu me preocupe com o que pareço ser diante das pessoas, com um rótulo, eu me preocupo comigo. Com a minha falta de capacidade de sonhar, de achar que as coisas serão melhores, o problema em achar alguém que pelo menos, não me chame de anjo e não diga aquele turbilhão de frases feitas, sem sentido nenhum. Não ofendamos os anjos, eu não sou um deles. Mas a questão é que eu não procuro e ainda corro na direção contrária, quando vejo um casal no maior romance já penso logo: “O tempo passa, bem, não acredita nele não.”rs

Estou bem humorada hoje, porque rio dessa coisa toda que a sociedade coloca nas nossas costas como um peso, porque eu passo as noites de domingo no pc, mas as minhas notas são boas e eu sou uma bela tia viu.

O problema em questionar tudo, em não se deixar levar pela maré de mentiras que tenta nos arrastar todos os dias, é que a maioria das pessoas é levada por ela e você fica sentada sozinha, olhando.
Eu tento explicar que não preciso me fantasiar de bolo pra ser feliz, tento dizer que posso pagar as minhas contas. Tento fazer com que eles entendam que a coisa ta difícil e que gente de caráter você não encontra mais em qualquer esquina. Mas eles não entendem, não querem entender. Eles só cobram.

Fui bombardeada por mentiras, choro e drama. Eu to cantando a tal da “I’ll survive”, mas cantar é mais fácil que sobreviver de fato.

Quando você sair na rua, com o vento tocando o seu cabelo, feche os olhos e sinta. Sinta espalhadas no sopro suave o som de palavras, de promessas. Todas jogadas sem o menor interesse de serem mais que isso um dia.

Acho que vou continuar não chorando com a novela, vou continuar escrevendo pra vocês no domingo até que talvez os convença que o real é isso, ou até que eles me convençam e me façam sonhar com um anel e um buquê.

Nunca fui como todos
Nunca tive muitos amigos
Nunca fui favorita
Nunca fui o que meus pais queriam
Nunca tive alguém que amasse
Mas tive somente a mim
A minha absoluta verdade
Meu verdadeiro pensamento
O meu conforto nas horas de sofrimento
não vivo sozinha porque gosto
e sim porque aprendi a ser só...

sábado, 26 de setembro de 2009

E QUE MULHER NÃO É MARIA?


Ouvindo “Maria Maria” de Milton Nascimento,me perguntando quem será essa tal, me veio à mente outra pergunta. E que mulher não é Maria?



As Marias se encontram todos os dias. Nos vagões do metro, nos taxis e nas escadarias dos prédios. Na padaria e na livraria, no trabalho e no cinema.
E diante do trabalho, da família e dos sonhos. E nas homenagens e nas delegacias elas se trombam e elas também tropeçam e se enfrentam nessa estranha mania de ter fé na vida.

Em tempos em que nunca se ouviu tanto em agressão contra a mulher, não que não houvesse antes, acontece que hoje, a impressão que fica é que quanto mais se luta contra, mais os casos aumentam.
Nunca ouvimos tanto em pedofilia, quanto mais se divulga um caso, outros dez surgem. São pequenas Marias de 7, 6, 5 anos aliciadas desde a tenra infância, descobrindo que ser mulher tem um preço suficientemente alto.

As Marias que ganham 30% menos no trabalho e que exercendo a mesma função, se sacrificam em nome do sustendo que agora, muitas vezes depende dela. As que largam a faculdade por esperar na barriga alguém que já a domina pelo amor, são elas as Helenas, Silvanas, Cristinas.

Disse Adélia Prado: “Mulher é desdobrável. Eu sou”.
Tendo na mente um turbilhão de coisas, amando uma multidão de pessoas e tentando desesperadamente esquecer mágoas e humilhações. Amando hoje, separando-se amanhã. Traindo hoje, beijando manhã. Sonhando hoje, caindo. Elas se divertem com o pouco, se alimentam do abraço e quando se deitam pensam se valeu a pena, pensam se não poderia ser melhor.

Ele passou no vestibular. Ela viajou pro exterior. Ele recebeu a promoção. Ele ontem, não dormiu com fome e ela penteou os cabelos.
Ela sabe que não está sozinha e ele também disse que amava.
Ele se casou no mês passado e ela estava lá. Ele mudou de emprego e ela está sonhando com um filho.
E pra onde essa gente toda iria se não fosse ela? A tal da Maria.
Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida....
(Milton Nascimento)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

DOANDO BRINCADEIRA

(Abrindo um espaço no blog, que não é jornalístico, para divulgar uam campanha muito bacana, organizada por amigos da faculdade. Participe!)

A CAMPANHA

“Doe um brinquedo e ganhe vários sorrisos”. É com este slogan que os alunos do quarto semestre do curso de Publicidade e Propaganda do Isca Faculdades pretendem arrecadar a maior quantidade possível de brinquedos e doá-los às crianças carentes da cidade de Limeira.

A campanha “Fazer o bem sem olhar a quem” acontecerá dos dias 16 de setembro a 07 de outubro deste ano e pretende arrecadar, além de brinquedos novos e usados, alimentos de primeira necessidade. As entidades atendidas serão as filiadas ao Ceprosom. A expectativa é de dar assistência ao maior número de entidades possível.

Os idealizadores do projeto e alunos Rodrigo Fernandes e Paulo Roberto Pfister contam com a participação de todos os alunos. “Sonho que se sonha só é só um sonho, mas quando se sonha junto é realidade”, diz Pfister, citando Raul Seixas. A idéia surgiu em uma conversa entre os colegas de sala sobre os problemas que muitas crianças enfrentam na atualidade, sobre a divergência entre realidades sociais e então o desejo de ajudar se transformou em estratégias, reuniões e envolvimento geral para a realização do projeto. A orientação do projeto é feita pelo professor e coordenador do curso, Victor Kraide Corte Real.

Para Fernandes, todo esforço com o projeto valerá a pena quando chegar o dia da entrega dos brinquedos. “O trabalho está no começo, mas vai de vento em popa. Com a ajuda de todos fica mais fácil”.

A campanha contará com doações dos alunos Isca e do COC Acadêmico. Doe também!

domingo, 20 de setembro de 2009

ENTRE VER E NÃO VER


"Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber...
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer..."

Zé Ramanlho/ Admirável gado novo


Os olhos se abrem. Piscam em câmera lenta, depois o ritmo se torna mais frenético. Eles enxergam, olham, mas nem sempre vêm.
A capacidade de ver, não está naquilo que se olha, mas na percepção que se tem do que se olhou, ela é formada por muito mais que retina, ela é formada pela experiência que os olhos adquirem, olhando.

No livro “Um antropólogo em Marte”, o capítulo VER E NÃO VER trata exatamente disso. Conta a história de Virgil, homem de 45 anos operado de cataratas que possui nos dois olhos, ela o impossibilitaram de podiam notar enxergar a vida toda. Ao retirarem os curativos, médicos e familiares de Virgil: Ele podia ver, mas o que ele via?
A questão é que uma pessoa acostumada a reconhecer um cubo de um quadrado pelo tato, não podia reconhecê-los agora, apenas pela visão.
O tratamento continua muito tempo após a alta dos médicos, a vida também trata e a experiência é uma doutora paciente.

Saindo do campo físico, a questão é tão ampla quanto, porque nem sempre vemos aquilo que deveríamos. Se tem uma coisa que peço a Deus, é que Ele amplie minha visão para aquilo que não é visível, e também minha audição para aquilo que não foi dito e que eu sinta o cheiro de coisas escondidas à milhares de metros abaixo do solo da conveniência.

Outro dia participei de uma palestra onde a palestrante, questionada sobre a forma briga entre grandes emissoras de TV, disse que neste caso não havia inocente algum, e incentivou os alunos a observarem com desconfiança e não crer em tudo que é divulgado. Pois, não é uma freqüentadora da denominação cujo dono é também dono de uma das emissoras ( o primeiro dono é intencional, não errei não)saiu revoltadíssima questionando quem a tal da palestrante era pra falar daquele jeito?

Sim ver dói e dói muito. Quando ouvi a tal reclamando fiquei com vontade de ir até ela e falar: “ Ei, nem todo mundo tem que acreditar no que eles dizem, se você acredita o problemão é seu”, mas depois, acalmando, percebi que ela não tem culpa, que ninguém que agora está assistindo a tal da Rede acreditando que foi Deus quem mandou passarem aquelas novelas ridículas, tem culpa. Todos os interesses comerciais, financeiros de detentores de poder estão escondidos, eles sempre estão submersos em um alto teor de blá blá blá e as pessoas não podem ver a não ser pela experiência e pela vontade de fazer isso.

No livro Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago aborda uma cegueira diferente da convencional. Diferentemente dos cegos tradicionais que vêm tudo escuro, a epidemia transforma as pessoas em cegos que vêm um clarão, tudo é tão claro que não permite ver nada além.

“ Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”. (pag. 310)

É isso que penso, que vejo quando vejo. Uma multidão que marcha para o nada olhando para luzes que mal sabem de onde e como são. Gente que tenta ajudar aos outros sem nem mesmo conhecer o caminho, que leva a sério tudo que é falado, que não questiona e não pergunta, que aceita tudo como ordem e a obedece até o fim.
Eu espero ardentemente me ver livre deste espírito de manada, e trazer comigo quem eu puder carregar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

EM OUTRAS FREQUÊNCIAS



“... remar contra a corrente
Desafinado coro dos contentes”.

(Engenheiros do Hawai/ Pose)



Depois de literalmente andar dormindo e levar um baita tombo, chegando a rasgar minha calça e mancar a noite inteira, resolvi que era importante dar um tempo. Hoje resolvi verificar o que Dom Casmurro queria dizer, deixei que a Alanis cantasse “Perfect” em meu ouvido e convidei a revolta para sentar-se comigo. Então deixei que ela falasse e calmamente enxerguei a onda de pessimismo em que me coloquei, retratada em meus últimos posts.
Essa onda só não me leva graças ao vídeo acima, que conheci através de um blog muito bacana, o Solomon.

Sem o desespero e correria habituais, notei que sim, que vale a pena. Olhando meus livros, amigos e as musicas que ando ouvindo reparei que nunca serei um “sexy simbol”, devo alertar que vocês nunca me verão na capa de uma revista dando dicas para manter a pele jovem ou indicando uma dieta nova. E que, se é isso que a realidade da indústria procura, serei obrigada a arregaçar as mangas e criar minha própria realidade, construindo com as pessoas que amo, um lugar habitável para pessoas imperfeitas.

Enquanto o padrão aparece e recita para as câmeras textos lindamente decorados, escritos por pessoas que pensam em mais que gloss, eu talvez esteja bem longe, fazendo nada demais, como ouvir líderes comunitários ou encher pratos com sopa em algum bairro onde o padrão não entra, nem mesmo para espiar.

Talvez eu escreva livros infantis, que digam às crianças que princesas e camponesas são iguais e que ambas poder ser muito felizes, mas nunca para sempre, e que os animais não precisam falar para expressar aquilo que sentem. E quem sabe assim, com uma nova consciência, algo novo seja feito por elas.

“Apesar das minhas fragilidades, avanço”, como Lya Luft. Apesar da superficialidade do sistema, da TV que entretém da forma mais burra possível, Apesar do modelo pesado que nos é jogado na cara, apesar de me sentir uma peça quadrada em uma forma redonda, eu tento.
Ainda como Lya Luft afirmo:

“Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido...
... Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.”


Eu continuo porque ainda estarei quando a gravidade violentar os corpos, quando as novas tecnologias forem ultrapassadas por outras ainda mais novas, e sei que verei o conteúdo vencer o externo. Ainda que num pequeno espaço em um mundo particular, eu estarei lá para perguntar: “What you gonna do with all that junk?”

As exceções existem e ainda que consideradas inconvenientes e irreais, ainda que discordem delas, ignore ou humilhe-as ..
É preciso saber que elas estarão lá.

E esse vídeo vai para aqueles que conseguem vibrar em outras frequências, só pra eles.

sábado, 5 de setembro de 2009

Na estante, comigo.

Eu não quero esquecer
Nem mesmo por um momento
Do medo, do sonho e do vento

Não me deixe viver segundo que não deva
Dizer qualquer coisa que não seja
O gesto, o teto e o beijo.
Eu não quero esquecer o submerso

O que atravessou meu concreto
Carregou em meu verso, um som
Quero dizer que já não quero mais ir
A fuga já não me interessa

Quero deitar aqui, sem parte ou pressa
Olhar o que fica
O que vai daqui em diante
Amar o instante
Passear no escondido

E o tal do sorriso
Brotou sem aviso, deixou um pedido
Aqui, na estante, comigo.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

ESPELHO MEU, QUAL ÚLTIMO LIVRO QUE VOCÊ LEU?

É difícil admitir, mas eu descobri que não conta.

Parei de escrever as matérias que deveria para a faculdade por um minuto, deixei o trabalho de lado para pensar um pouco, mas amargamente digo que nada disso vale.
Que livro você está lendo?
Em que tem pensado?
Quais as pessoas com as quais você procura estar, trocar conhecimento, interagir?
Você viu aquele filme? Leu aquele artigo?
Nada disso tem relevância.

Meus dedos mal conseguem digitar de tanto cansaço, mais erro as teclas que acerto. Dormindo tarde e acordando muito cedo.
Dizendo sim aos compromissos.
Crescendo, como eles dizem.
Mas agora eu entendo que não faz diferença.
É tão triste aceitar a condição a qual estamos todos expostos, acreditar que não é fato é bom, mas não muda o fato em si.

O que faz a diferença é como você se equilibra em um salto alto. A forma que usa a maquiagem ou o manequim 36 em que você se encaixa.
O ser atraente, sexy e perfeitamente plástica, tem toda a relevância que pode ter uma profissional competente.
A forma como se senta e deixa que eles vejam quão sedutora uma mulher pode ser, as roupas que sempre mostram um pouco mais, o corpo quase como o da revista e o cabelo do comercial de xampu.
Sim, tudo isso conta.

A sensação da aceitação dessas condições é sufocante, me fez perder o sono. A revolta chega a me asfixiar. E mesmo que este post seja talvez, o mais pessimista de todos, não vou ignorá-lo, porque quero mostrar que sou boa aluna e que aprendi muito bem o conceito de profissional do século.
Aprendi exatamente tudo o que os livros e mestres não me ensinam, entendi a lição passada pela experiência e pelo que vejo.

E o que vejo é que ninguém se interessa pelo que vai em sua cabeça, suas ideologias e sonhos, suas opiniões e a luta que é ser mulher em uma sociedade ironicamente machista, o que realmente vale é um sorriso misterioso e um belo rebolado.

Vende-se livros da Clarice, do Machado e do Chico, apostilas e amigos questionadores. Também aceito trocar por hidratantes, batom e qualquer um que entenda de moda. Acho que já ta bom!

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.”


... Marina Colasanti...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

AOS PORCOS

Educação é um treco complicado de se achar hoje em dia. E não é que eu não procure. Resolvi escrever esse post como forma de desabafar. Ainda que ele não seja tão lido, que não seja comentado e que não desperte o interesse. Vou fazer assim mesmo.

Esses dias estava assistindo um documentário da BBC e uma das frases que ouvi não sai da minha cabeça: “A forma como tratamos uns aos outros tem conseqüências graves”, não me lembro quem disse e sei que parece obvio o sentido dela, mas a gente se esquece.
Eu, nos meus 22 anos, estou cansada de conviver com gente mal educada, gente que acha que o mundo tem que girar no sentido que gira o seu egoísmo. Gente que acha que pode falar como, com quem e da forma que quiser e ninguém tem o direito de se magoar.

E no meio de tanta gente malcriada e egocêntrica é preciso ter auto-estima. A auto-estima não aparece quando você se olha no espelho, quando se maquia ou compra algo novo apenas. Ela surge quando você deixa claro a forma como exige ser tratado e não se contenta com relacionamentos superficiais com pessoas superficiais, cheias de seus problemas e suas duvidas, incapazes de olhar ao redor e perceber que a Terra gira com ela ou não.
“Mais do que máquinas precisamos de humanidade. Mais do que inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido.” Disse Charles Chaplin, acho que ele como eu, estava meio de saco cheio.

Acontece que a paz não é um movimento que se provoca ou um documento que se assina. Ela é um estado de espírito. Ela não envolve grandes nações e povos. Ela envolve cada um individualmente e se manifesta nas nossas atitudes a cada dia.
Querer um pouco de paz é querer ter a mente tranqüila, livre das grosserias corriqueiras e do negativismo que a sociedade, muitas vezes, nos impõe.

E se você ainda não sabe como ser educado com os que te cercam, por favor não saia de casa.
Se não sabe falar com respeito, então não abra a boca.
Existem pessoas com valor próprio suficiente para não precisar passar por isso.

“Doe sangue para hospitais.
Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho.
Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.”
Martha Medeiros.
Tem um versículo bíblico que traduz isso muito bem. “Não jogue suas pérolas aos porcos”.

domingo, 23 de agosto de 2009

"O QUE EU MAIS GOSTO NELA"


“...respostas que eu não tenho
eu me desperso eu nem as quero
se o que eu gosto na vida
é seu mistério, é seu mistério
respostas só confundem o que meu coração quis

respostas são pra aqueles que têm medo e eu já cai”.
..Danni Carlos / Pisando em marte...

Eu ja ouvia essa moça aí muito antes dela recolher ovos e escovar cavalos e nem de perto é disso que quero falar. Reality Shows não fazem o meu tipo, e certas redes também não.

Eu tava ouvindo essa música essa semana e dando uma viajada numa das vozes mais bonitas que ja ouvi, de uma das compositoras mais proofundas que conheci e me deparei com a realidade da nossa necessidade de respostas.
Nós queremos saber de tudo o tempo todo.

Nós consultamos a previsão do tempo e como estão as estradas antes da viagem. Calculamos quanto tempo levaremos para executar determinados trabalhos, alguns mais crentes consultam seu horóscopo, cartomantes e até a lua.
A verdade é que nós odiamos ser pegos de surpresa.

Eu mesma já me peguei tentando entender tanta coisa, controlar tanta coisa e pressionar para que as situações andem conforme o meu desejo.
Me esquecendo de que para cada dia basta o seu mal, como li uma vez na Bíblia, e acho também que cada dia reserva sua surpresa.

Eu não sei de onde vem essa necessidade de se afirmar saber de tudo, esse desespero em querer o controle. Mas sei que é hora de abandonar isso. Como se abandona uma roupa que não serve mais, como se esquece de algo que dói na lembrança.

Quero abandonar essa necessidade, quero abandonar porque isso pesa demais e meus ombros já estão demasiados curvados.
Abandonar com o mesmo sentido do poema de Pessoa:

"Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas,
que já têm a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia;
e se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos”.

Eu não quero permanecer à minha margem, quero ir onde o impossível pode levar.
Então nas palavras deste post, tento me libertar de tudo que prenda, acorrente ou amordace a começar pela necessidade do conhecimento exagerado.

A vida: O que eu mais gosto nela é seu mistério.
Deixo então o vídeo da musica, viaje também:


domingo, 16 de agosto de 2009

A BIG FISH

Enquanto eles nos dizem o que fazer, nós procuramos pelas brechas que eles se esqueceram de fechar.
Enquanto eles me ligam e dizem como devo proceder, o que dizer e de que forma falar, eu nado contra essa maré de ordens, desesperadamente e quase sem ar eu finjo ver alguma saída, eu minto pra mim, acreditando que já estou chegando em terra firme.

Uma terra onde tenha tempo de pensar, onde possa ser quem sempre fui.
Onde possa assumir meus erros e defeitos, e que eles sejam meus apenas.

Enquanto eles falam ao povo sobre a importância da obediência, e em como são bem aventurados os que não discordam, mas diligentemente respondem com uma grande e sonoro “sim”, eu estou tentando derrubar as mascaras.
Estou cerrando as cadeias com meus dentes, fazendo de todo meu esforço uma arma para tirá-los de lá, mas eu também quero sair, mas como?

Eles detêm todo o poder sobre nós.
Eles podem formar a nossa opinião.
Os outros dizem que sim, e também dizem que sou louca, sou rebelde, talvez esteja perturbada demais.

Acontece que eu ainda cerro com meus dentes, eu ainda grito aqui no fundo das ordens mal dadas, mal explicadas.
Mas me sinto, como na musica de Fernando Anitielli, eu “estou morrendo, morrendo comigo na mão.”

Como na mesma musica, sei que “é preciso aprender a morrer, para nos tornarmos imortais.”
E eu quero morrer pra eles, quero ir além até que eles não me vejam mais.
Eles não podem manipular quem não podem ver, não podem tirar o sono de quem já morreu.

Eles me mandaram fechar os olhos e me mandaram erguer as mãos, Eles usaram o Nome que não deveriam ter usado. E eu?
Eu não posso lutar mais, que eles me vejam morrendo. Mas única mensagem que me vem a mente esta em “Lost”:

"Eu apenas me perdi
Todo rio que tentei atravessar
Toda porta que testei, estava trancada
Ohhh eu estou...
Apenas esperando até que o brilho se apague...

Você pode ser um peixe grande
Em um pequeno lago
Não significa que você venceu
Porque logo pode chegar
Um maior..."


domingo, 2 de agosto de 2009

MUTAÇÕES FAISCANTES. YEAH!

“...fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.”
(Clarice Lispector)

Uma das acusações que ouvi recentemente é que não sou a mesma, ando mudada. Num tom desanimado a pessoa me confessou que gostava muito mais de mim antes, considerando que o antes data seis anos atrás, acho que devo ficar grata e sorrir quando digo: Sim, ando mudada.
Já imaginou se eu me vestisse como quando tinha 16 anos? Se eu ouvisse as mesmas coisas? Se tratasse as pessoas da mesma forma ou se tivesse as mesmas idéias?
Seria no mínimo ridículo e cômico.

Concordo com Lya Luft quando diz que viver deveria ser até o último e derradeiro olhar, transformar-se. Afinal, essa é a graça da coisa toda.
Eu quero me transformar para não matar de tédio aqueles que me cercam, da mesma forma que não quero bocejar ao encontrar um velho amigo.
As novidades e as mudanças são sempre tão bem vindas quanto um sonho.

Leminski, em um de seus poemas relata: “ quatro dias sem te ver, e não mudaste em nada”, o tédio na escrita do poeta é claro. Ele como criativo que sempre foi não admitia o comodismo ou a mesmice nas idéias e pessoas.

Muito por isso, não acredito nessa história de alma gêmea e nem em par perfeito. O que acredito é que em todas essas fases pelas quais passamos, existem pessoas que se encaixam e depois deixam de fazer sentido mudando a direção. Quando encontramos alguém com o mesmo poder de evolução e de compreensão desta evolução, ai sim,passamos a seguir pela vida com o mesmo alguém.

Então como resposta aos que perguntam por que ando mudada, digo que sim com orgulho, eu já não sou mais a mesma e no momento quem que você me lê, já não serei a mesma que escreve neste blog.
Sim, as minhas mutações me fascinam, me surpreendem e me permitem continuar viva.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Perguntas, respostas e vazio.

O sentido do amor é tão profundo. Ele não conhece raça, credo ou religião.
Não conhece os parentes e nem sabe onde termina a história. Ele só conhece o que é sentar ao lado e dar risada, bater papo com alguém cuja falta se compara ao vazio de uma folha em branco.
Agora sei porque Deus é Amor, porque Ele só habita no que é simples e sincero, sem exigências demasiadas ou sofrimento antecipado.
Porque Ele tem o peso do perdão e o cheiro de coisa nova.
Porque Ele se renova todos os dias e se deixa ser, sem formatos que o tentem prender.

O que fazer de todas as coisas do mundo se ao olhar ao lado, aquela pessoa não estiver lá?
Para que olhar um sol que só seus olhos podem ver e o lugar vazio grita.
Porque colocar alguém para ocupar o vazio, não sendo dele o lugar? Sim, nós somos insubstituíveis em matéria de amor, porque ninguém irá cobrir a falta de outro e o lugar permanecerá vazio.
Como se houvesse um código específico, uma senha, e a entrada de estranhos é proibida e a condição é inegociável.

Porque afastar de mim alguém usando o nome de Deus, de uma família ou de uma igreja? Porque achar que esta fazendo a coisa certa ao dispensar alguém em nome do certo, para se poupar do trabalho da luta?
O nome do amor também é luta, o outro nome é também abandono. Não se deixa algo precioso entrar, sem abandonar o que é supérfluo e humano.
Não existe espaço pra o comodismo e o amor na mesma sala.
Não existe sala para o perdão e o conforto.
( As respostas que quero não encontro,
as perguntas me escapam como um sopro)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

REPRESENTAÇÕES

No porta retrato meu rosto sorri
Naquela foto a minha boca se abriu
Representações de dias que foram melhores
Os olhos já lacrimejam com tanta freqüência que estranho
a secura destes quando a percebo.

Os cabelos eu não lavei, não preciso mais que me sentar aqui e me deixar levar.
Os sonhos, alguns abandonei, outros construí e luto por sentido
Por vida e ideologia
Eu luto por mim!

A minha aparência recebe a interferência da minha alma
E está tudo tão pesado
E eu chamo por alguém que passa do lado de fora
Eu grito um nome que está acima de todos os outros e peço
Que me redima
Me lave

Que cuide dos meus cabelos ensebados e trate as feridas que já cheiram mal.
Eu luto por vida
Por nexo
Eu chamo
E parece que alguém está me ouvindo

Parece que alguém se aproxima.

domingo, 12 de julho de 2009

LIBERTE

“A herança genética de sua família, seu DNA específico, seu metabolismo, as questões quânticas que acontecem num nível subatômico... Existem as doenças de sua alma que o inibem e amarram, as influências sociais externas, os hábitos que criaram elos e caminhos sinápticos no seu cérebro. E há os anúncios, as propagandas e os paradigmas. Diante dessa confluência de inibidores multifacetados- ela suspirou-, o que é de fato a liberdade?”

...William P. Young...


Quantas musicas ouvimos falando dela? Quantos poetas acordam no meio da noite para escrever sobre? Quantas pessoas a procuram como um animal esfomeado procura por comida? Mas o que de fato ela é?
Eu estava no colegial quando escrevi uma frase que uso constantemente: “ Uma pessoa é livre enquanto sua mente for livre”. E acredito nela como acredito em mim.

Não adianta viver só ou acompanhado num pasto ou numa fazenda aberta se você deixar que aprisionem seus pensamentos, se permitir que te digam o que é bom ou ruim pra você. Se você deixar que o passado o torture trazendo os mesmo sentimentos de sempre.

De nada vale sair por aí pra curtir com um pessoal que você gosta se no final das contas, quando volta e se senta na cama, se arrepende da maioria das coisas que fez. Não adianta se for pra acordar chorando e pedir desculpa no outro dia pelas coisas impensadas que disse, por acreditar ser livre para dizer o que quiser.

Se for pra achar que você não pode ter beleza se não tiver o corpo, o cabelo, os olhos e o sorriso da revista, se for pra morrer de fome e gastar todo seu salário naquela roupa que te pediram pra usar, então sinto dizer você não é livre.

A liberdade só existe quando nos comunicamos conosco e percebemos que nosso relacionamento intrapessoal está em ordem. Ela só vale quando nossos erros são nossos, e não quando os cometemos a mando de outros ou para agrado de. Quando os acertos também cabem na nossa maneira de ver e não porque algum “Senhor” mandou.

Indo mais fundo, ela só é real quando você responde por você com a cara limpa e consciente de quem luta pelo que acredita, mas antes, respeita aqueles que o cercam.
A frase é velha, mas cabe: A sua termina quando começa o do outro.

Um cara pode estar numa cela há anos, apertado, e ele pode sim ser livre. Ele pode escolher não precisar pedir desculpa o tempo todo e nem ter remorso porque ofendeu alguém, ele pode optar por sonhar tranqüilo com um dia que as coisas mudem, ele pode optar por ser grato ao invés de reclamar sempre.
Ele pode escolher ser um vento suave entre tantos, a ser um peso a ser suportado.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

CADENTE

Ela passou como um raio cortando o céu, passou vagarosamente e brilhantemente acima das nossas cabeças. Há quanto tempo eu não via uma estrela cadente? Não sei. Acho até que nunca tinha visto uma, não com tanta calma assim.
Enquanto eu lia “ Quando Nietzche chorou”, e minha sobrinha ao lado, brincava com um brinquedo que ganhou há poucos meses, fui tomada por uma estranha sensação de riqueza, uma sensação de plenitude que nunca tinha conhecido. Eu valorizo o conhecimento das sensações muito mais que qualquer outro conhecimento.

E dentre todas as coisas que pensei, uma delas foi :”O que eu preciso mais?”. Eu tenho um livro, eu tenho uma sobrinha cantarolante em plena saúde do meu lado e tenho um céu quase amarelo acima da minha cabeça aguardando a despedida do sol. Tenho um pai entretido com os passarinhos e uma mãe que fica o tempo todo perguntando se estou bem. Tenho amigos que não me deixam em paz, digo no bom sentido... porque me lembram que por mais que me sinta só, eu não estou.

Acho horrível ter que usar o verbo Ter nesse tipo de declaração, mas a nossa língua portuguesa é traidora as vezes, nos fazendo ter, ter e ter ao invés de sentir apenas. Como se você pudesse aprisionar a amizade ou o amor de alguém num verbo mal explicado.

E então Ela passou, minha sobrinha de quatro anos, pulou se perguntando que era aquilo, os olhos curiosos se agitavam pra mim, então eu disse sobre a estrela e sobre o que as pessoas dizem a respeito de fazer pedidos quando uma delas passa.
Então a menina fechou os olhos e pensou e pensou no seu pedido, e então ela gritou:
- Eu quero um tênis que brilha, dona estrela!

Eu quis rir, mas depois quis chorar. Em lembrar de um tempo em que tudo que eu queria era um tênis que brilhava, um laço rosa pra por no cabelo ou uma roupinha nova pra minha boneca. Lembrei que hoje as coisas são tão mais difíceis, muito em partes, por culpa minha. Eu ando dificultando as coisas pra mim.
Então lembrei que não preciso de mais nada, não preciso exigir tanto de mim.

Quando a traça corroer tudo, quando nada tiver sentido e sinto que cada vez mais esse dia se aproxima e o sentido se afasta, eu ainda terei um céu quase amarelo, ou quasse negro ou azul, a voz infantil cantarolando algo sobre o sabiá, ainda terei a minha estante de livros e alguém me lembrando que não estou só.

"...E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais..."
(Vinícius de Moraes)

sábado, 27 de junho de 2009

ELA

Ela subiu no sofá da sala que se encostava na parede azul
Abriu a janela que mal podia alcançar e gritou
- Venham todos, venham ver os países.

Então toda a família se aglomerou e olhou
e só o que viram foi o que o óbvio podia ver
Viram muros e telhados, casas e àrvores,
viram também o céu que trazia nuvens carregadas
Desesperadas para explodir em gotas.

Ela, no entanto, olhou e viu
Viu que por trás da cortina cinza cheia de nuvens,
haviam pessoas que habitavam países e continentes,
estados e cidades, havia gente de todo tipo e bichos também ela viu.

Viu que nada era da forma que se vê, que sempre há mais
Que o horizonte é o lugar onde se deseja intimamente estar,
tão longe e tão constante.
Viu galhos e insetos, flores e folhas
Risos e dores ela viu.

E no fundo do que era, ao ver passou a sentir
E sentia todas as dores do mundo
E pensava em todos os sonhos das gentes
Ria o riso das crianças todas que enchiam a Terra.

E a fisgada no peito apertou bem fundo e quase como um grito lhe escapou da cabeça e invadiu a boca e calou os olhos, aquela pergunta que vem quando se vê:

Pra quê eu vivo?

quarta-feira, 24 de junho de 2009


Se pudesse trocar de nome
Eu me chamaria alento
Eu responderia ao tempo, essas ofensas que tem me feito
Eu gritaria na rua como é bom viajar sem culpa
E ficaria por horas dizendo e dizendo
Uma palavra tão crua que causaria enjôo
Palavra tão verde que amarraria a boca
Tanto a minha quanto a sua.

Se pudesse voar sem pressa eu me levaria ao fundo
No soluço do susto
E no movimento do vento intenso e atento
Pousaria sem medo
Onde sempre desejei estar
E cairia sem pressa e sem jeito
Bem perto do seu lamento
Ao lado de sua casa
Embaixo da sua asa
Até que chegue a hora
De mais uma vez ir embora
E então se vá.

domingo, 21 de junho de 2009

MEU ANTIGO E ADMIRÁVEL MUNDO

Conversava com um amigo esses dias sobre o poder que as novidades tecnológicas exercem sobre a gente. É inacreditável o que fazemos hoje, muitas coisas que não imaginávamos há 10 anos, e isso sendo bem generosa, porque tem coisas que não imaginávamos há 1 ano atrás.

Realizei um trabalho para a faculdade no início deste semestre que analisava algumas novas mídias, eu, responsável pela web cam, não tive dificuldade em reparar a diferença que há entre o ante e o pós desta nova tecnologia. Ela mudou o sentido da saudade, mudou a forma das relações mais tradicionais como de avós e netos e mudou também, e talvez com mais visibilidade a forma de se enxergar o sexo.

Esta semana fiz aniversário e é incrível o número de felicitações que recebi por email, SMS e por recados no Orkut e acredite, dei a todos eles o mesmo valor que um abraço real.
Sim! Esse admirável mundo novo é realmente muito bom. As possibilidades são tantas, as novidades são ainda melhores.

Mas o que acontece de errado é quando a gente se acomoda, é quando a gente acha que um SMS basta e que MSN também serve pra matar a saudade.
Quando a gente pensa que o Orkut carrega a vida exata da pessoa e tudo que ela sente, quando nos esquecemos de perguntar se está tudo bem? De forma comum, antiga e tradicional.

Eu sou um exemplo, vivo adiando encontro com amigos ou achando que um recado vai resolver o problema. Venho deixando minhas discussões serem virtuais e ainda consolo amigas por SMS. Meu Deus! Isso é ridículo!

É inacreditável como as novas mídias e toda essa tecnologia tem atado as nossas mãos e tem nos deixado cada vez mais robóticos, nossos sentimentos são virtuais e a gente se satisfaz num email.
Esse meu amigo me disse que a gente vai acabar enlouquecendo, que entrar demais nesse mundo enlouquece e o pior não é isso, o pior é que aquele que não entrar totalmente é que vai ficar com fama de louco.

Bom, eu sei que este post é de uma pessoa leiga nesses assuntos mais modernos, apesar das minhas últimas rendições, eu ainda sou da turma do livro no papel, do telefone com fio e do sorvete na praça.
Eu ainda fico com a minha “First life”, ainda que não seja perfeita, mas ela é real né. Fico com a gargalhada de verdade e não com aquelas dos emotions, fico com o “e ai?” sonoro e fico com a galera de carne e osso que vive ao meu redor, sem tratamento de imagem e sem musiquinha de fundo em mp3.

Eu vou ficando com o antigo e admirável mundo e com tudo de verdadeiro que ele pode me dar, porque email não tem cheiro e monitor não sorri pra mim quando falo bobagem.
"Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento."

Adélia Prado

quinta-feira, 11 de junho de 2009

COISAS DO AMOR

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife seguro, sem movimento, sem ar ele vai mudar. Ele não vai se partir, vai tornar- se indestrutível, impenetrável, irredimível.
( C.S. Lewis)


Acho que o famoso escritor de “As crônicas de Nárnia” tem razão. Sim, nós podemos guardar os nossos corações e sim podemos torná-los independentes assegurando-os num lugar confortável. Mas, não podemos obrigá-los as permanecer da mesma forma que um coração que foi entregue.
Um dia li que o amor nada tem a ver com aquilo que se recebe, com atitudes ou palavras de uma pessoa seja ela amada ou não. O amor só pode ser aquilo que se dá, aquilo que é oferecido, doando é que se sente amor, recebendo podemos sentir carinho e gratidão, mas nada que vá muito além disso.

Não sei por que estou me dedicando a essas palavras, você pode pensar que deve ser porque hoje é véspera do dia dos namorados e isso me inspirou de alguma forma, mas essa é mais uma data comercial onde empresários e publicitários ficam um poucos mais ricos. Eu sei que no dia 13 de junho as pessoas correrão às lojas pra trocar os presentes que não gostaram e sei que no dia 14 todas as palavras já serão esquecidas, e esse dia ficará apenas nos cartões que ficarão guardados.

Agora, você vai pensar que eu devo estar muito frustrada pra dizer isto. Mas é preciso ver o que está estampado em nossa frente e entender que o amor não está nos comerciais de grandes lojas, ele não está em frascos de perfume e nem em uma noite que prometia ser inesquecível. Ele se esconde nos lugares inabitados e ele ameaça aparecer quando tirarmos toda essa roupa que a publicidade nos mandou vestir, quando quebrarmos os cartões e entendermos, como disse Chaplin em "O grande ditador", que não somos máquinas, nós somos homens e necessitamos de bondade muito mais que toda essa quinquilharia.

É por isso que há por todo lado pessoas que se escondem, gente com feridas tão profundas por relacionamentos que só trouxeram algo pra se envergonhar, é porque nós permitimos que as novelas nos digam como amar, é porque assistimos a filmes e exigimos que as pessoas que nos acompanham tenham as mesmas características, coisas que nem mesmo nós sustentamos.
É porque permitimos que um Grande Irmão* nos endureça e nos torne frios já que não achamos aquilo que julgamos merecer, aquilo que os outdoors dizem que merecemos.

E então nos tornamos impenetráveis, à procura de flores e bombons, de perfumes e bolsas, de sorrisos em fotos. Nós andamos cada vez mais longe daquele amor que ficou esperando num lugar escuro e simples com a goteira fazendo barulho e uma musica muda.

Nós nos tornamos em coisas que possuem cada vez mais coisas e não sentimos nada, nem mesmo culpa, já que somos consumíveis e descartáveis agora.

*Grande irmão/ Livro 1984 de George Orwell

sábado, 6 de junho de 2009

HOJE.

Hoje o mundo acordou com a cara virada
Tudo desarrumado e grudado
Hoje o mundo inteiro acordou sem querer falar comigo
Acho que ando atazanando o mundo..
penso que ando falando demais.

Mas há dias que não quero ver o mundo
Tem dias que não quero falar também.

Mas hoje era um dia absorto em toda palavra
Um dia em que plena, achei que podíamos travar num contexto
Um gesto ou um jeito
Se entender no que passa, no que passou e no que vem.

Esse mundo que se compõe de coisas e seus fins
E de pessoas que se coisificam, e de coisas que se personalizam.

Um dia ouvi um cego que profético,
que do que não via não entendia,
me disse: “Preste atenção,
tudo está perdido mas ainda tem o mundo
Ainda tem as gentes e o tempo.”

Mas no seu desejo de provérbio não pensou que eu já sabia
Duas vezes pobre, duas vezes cego.

Quero dizer que hoje eu não tenho o mundo
Não tenho as gentes e nunca fui tão muda, num estive tão mudada.
Hoje eu só tenho o tempo que bate cobrando o preço
Eu tenho o tempo e a palavra que se sentam ao meu lado
Só por eles e para eles eu não vivo só.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

À ESPERA DE UM LENÇO

“ Cerro os dentes e enterro o cortador bem fundo em uma de minhas unhas. Corto a carne e deixo o sangue brotar. Esfrego o dedo no lenço, dos dois lados, e o devolvo a ela.
“ Aqui está a sua virgindade”, digo.”


As frases acima são de um livro que ando lendo e se chama “O Salão de beleza de Cabul. O mundo secreto das mulheres afegãs”, depoimento de Deborah Rodriguez que viveu histórias intensas num Afeganistão que se reconstruía da guerra.
O trecho trata de uma jovem que na noite de núpcias precisava enganar o marido de que permanecera virgem até ali. Um detalhe que não torna a história mais ou menos chocante é que ela havia sido abusada anos antes por um primo e também noivo que a abandonou depois disto.

E Deborah continua:
“...Ouço a mãe de Roshanna gemendo e chorando. Portas estão batendo...
...vejo que a mãe de Roshanna está chorando de alegria. “Virgem”! ela grita pra mim, triunfante, acenando o lenço manchado com meu sangue. “Virgem”!


Quando li esta história, minha primeira reação foi agradecer a Deus por não habitar num país como este, foi tentar me enganar que por aqui as coisas são diferentes. Mas, com alguns segundos pra pensar e memórias que sempre voltam, sou tristemente obrigada a dizer que as diferenças são mínimas.

É verdade que quando me casar ( se casar) minha família não ficará acampada na porta de meu quarto esperando pelo lenço manchado, e caso ele não se manche o marido não me devolveria, nisso somos diferentes sim.
Mas, a sociedade sempre acampa à espera de outras coisas, satisfações talvez e uma boa desculpa por você ter agido do modo como agiu.


Já passei por fases assim e ainda nem sei se elas já acabaram sinceramente, ouvi coisas que não gostaria de ter ouvido e carreguei adjetivos que certamente não eram meus.
O lenço certamente estaria manchado, mas isso realmente não importa agora, quando despejam todo tipo de escória em seu nome e te fazem acreditar que não se é digna de nada além de um canto escuro e de lágrimas salgadas demais pra te deixar dormir.

Tem sempre alguém acampando e gritando o que acontece do lado de dentro, ainda que tenha tido uma visão distorcida, tem sempre alguém se aliviando do erro e o despejando em outros ombros.

A verdade é que nosso sistema interno, muitas vezes, é o mesmo que o sistema de países extremistas, o que muda é o que está do lado de fora. As mulheres das terras tupiniquins sofrem tanto como as que encobrem todo o corpo. Nós sofremos por dentro e nós pagamos muito caro pelas escolhas que fazemos acreditando que a era é outra e que as coisas são mais modernas agora.

A verdade é que continuamos manchando o lenço umas das outras para nos proteger, continuamos aceitando os adjetivos e esperando que um dia a verdade surja com o sol.

Eu, muito inocentemente e quase burramente, espero não precisar mais chorar num canto escuro por decisões que ficaram no passado, espero não ter que explicar nada aos que esperam por respostas para satisfazer seu ego faminto de auto afirmação.
Quero levantar a minha cabeça, e ali, alta e segura me ver livre das palavras encardidas e da falsa santidade que anda latindo como um cão assustado.

O caso é que as condenações são as mesmas, já a sinceridade não.

terça-feira, 26 de maio de 2009

MARIA

Havia dias em que ela se levantava trêmula e ainda capengante, parava e se encarava diante do espelho.
O olhar vazio contemplando a roupa branca, ainda a de dormir, os gestos lentos parecendo desmanchar no ar ao som do pássaro que cantava na janela, preso em uma gaiola.

Houve um tempo em que as faces foram rosadas e os cabelos quando penteados roubavam olhos por onde passavam.
Neste tempo, ela nem mesmo se encarava, a felicidade a consumia do nascer do dia à morte deste.

Mas o tempo sempre se vai e como quem nada quer deixa bem claro que já se foi, e nos deixa ralos com o compasso de seu passar e traz coisas e leva outras, ele sempre leva alguém.

Ela, melancólica, olha-se como quem se ignora.
Sente-se como quem não existe.
Sonha como se sonho não houvesse.

Com passar do tempo, Maria, a gente se acostuma
Com o pássaro na gaiola
Com o olhar vazio
Com a fome das coisas que o tempo levou.

Haverá dias, Maria, que você não se lembrará destes dias tão cínicos
De pessoas tão chulas
De palavras tão torpes
Em que você se encarará apenas e perguntará:
Quanto tempo já passou?

Enquanto isso aguente Maria,
Esqueça o sonho que já não há
Esqueça-se da forma que se sente
e das pessoas tão cheias de si.

Apenas se encare Maria, que o tempo levará.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

DESPEDIDA CRUA

Eu quis olhar pra trás
Mas minha visão foi embaçada e não consegui ver
Eu quis sentir um cheiro, mas como se uma alergia me atacasse
Minhas narinas foram travadas e assim não pude
No meio da neblina, eu procurei pelos olhos
As mãos já foram soltas
Os corpos afastados
Mas eu ainda me lembrava
E eles eram verdes.

Eu quis dizer que tanto faz
Quis pensar que tinha jeito
Tentei sonhar com algum futuro
Mas futuro eu sei, já não há.

Eu pensei me deixar levar pelas desculpas
E acreditar que se passou tempo demais pra desistir
Mas jeito já não tem
O amor já não vem
E eu não tive culpa ou não quis ter.

Os olhos são cinzentos e o verde se apagou
A graça foi embora e o que ficou foi o choro.
A decepção também se foi
No lugar, um espaço vazio, oco e sem nome.
É o que tenho agora e te ofereço
Esse espaço é seu
Vazio, oco e sem nome.

Pra alguém ainda mais oco
Pra alguém ainda mais vazio.

A despedida não é necessária
E as palavras cruas são esmagadas com um sopro
Então eu digo:
Vá em paz e vá com seu nome
Vá com a paz que foi roubada de mim e
seu nome limpo e claro às custas do meu, agora sujo por amor do seu.
Pela sua falta de coragem
Pela sua fome de aplausos.

Fique com as palmas e fique com o nome
Como já disse, os nomes não me importam e os aplausos sempre cansam
Já que são sempre tão vazios.
E eu fico.
Fico com a promessa de um amor que vem
Com a ousadia de sonhar com um futuro.

Fico sentada na estrada ouvindo seus aplausos
E às pessoas que gritaram o seu nome.
Aos poucos os aplausos terminam
Os gritos se abafam
E ao redor dos seus olhos eu só vejo esse espaço
Tão oco e tão vazio
Um cheiro de nada

A voz da mãe que não preenche o vácuo
A lembrança de alguém que quis ver mais
Ser mais
As lembranças também irão um dia

Eu me levanto da estrada e vou
No silencio do seu nome e carregando o meu cheio de escória
Mas uma escória tão cheia de dignidade e tão leve
Finalmente eu verei olhos que me vejam também.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

SANTA IGNORÂNSIA COM S!


Por favor, não fiquem assustados, o título deste post é intencional e sim, eu sei que ignorância é com C.
Acontece que tem gente que não sabe, tem gente que escreve coraSão, que escreve caiCHa e que escreve deRRepente. E quando isso acontece, como a gente ri.
O que acontece na verdade é que quando a gente ri de forma a constranger alguém, provamos ser um bando de ignorantes, pseudo-intelectuais, que deveriam ao menos tentar analisar essas questões com mais lucidez.

Outro dia eu percebi que vivo cometendo erros de português, fiquei chocada, eu quis culpar o MSN, o Orkut e o cansaço. Eu quis me justificar.
Cheguei a escrever na lousa da faculdade e bem grande HipogliSSemia, então “alguém gritou, hipoglicemia é com C” . Mas eu não fiquei envergonhada dessa vez não, o fato é que eu não sabia escrever isso mesmo.

Mas o objetivo deste texto além de confessar meus pecados gramaticais é me fazer refletir e fazer refletir o tamanho da mediocridade que é ficar tirando sarro de quem "escreve mal" ou se achar super esperto porque nunca cometeu um erro, um pequeno que fosse.

Meu linguista favorito Carlos Bagno, trata em seu livro “Preconceito Linguistico” questões como essa, preconceitos que nós, “pseudo-intelectuais” cometemos contra o nosso povo, muitas vezes sem acesso.
A língua é criada pelo e para o povo. Então não existe errado e nem certo, muito menos meios de controlá-la.

Não dá pra chegar num pai de família que trabalha na roça, que teve que parar de estudar cedo pra sustentar a casa e dizer:
- Ô seu João o trema caiu segundo a nova norma da língua viu, fique atento.
Talvez ele não saiba o que é trema, talvez ele saiba, mas não tenha a oportunidade de usar mesmo.
Mas o seu João não é ignorante, ele é um brasileiro como eu, mas que não pode ir à escola, só isso.
A língua que ele fala não é inferior à minha, é diferente, porém é o português ou o brasileiro como ele achar melhor dizer.



Que os Seus Joãos e Marias e Antonios perdoem os nossos preconceitos linguísticos ( sem trema). E que a gente possa reconhecer que sim, erramos às vezes e depois concertamos ou não. Mas, que somos o mesmo povo.
Ignorante é aquele que se coloca como superior e mesmo escrevendo “certinho” ( que é um termo preconceituoso), não sabe olhar para o outro com carinho, não sabe dar valor as pessoas que tem próximas, julgando-se em um nível mais alto.

A verdadeira ignorância está no ridículo das palavras impensadas e nos comentários inconvenientes.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Pensamento mórbido

Música para os ouvidos
Palavras para os lábios
Poema para o sonho
E trabalho para comida

Quem disse que existe um fim?
Quem disse que existe um tema?

A minha vida foi pautada como a uma reportagem.
Quando nascemos entregam-se as pautas.
Ninguém está isento.
Mas a minha se rasgou e não sei pra onde ir,
Eu simplesmente não posso fazer nada

Poderia consultar um documento qualquer, se esse existisse
Algo que me explicasse
Alguma placa que indicasse o caminho
O senso e a direção

“Andando em bravo mar, perdido o lenho”, disse Camões
Se eu traçasse uma linha, o que estaria no início?
O gesto, a crítica ou o sonho?
Talvez fosse o fim.

Eles me disseram que não pode ser assim
Não se pensa dessa forma
Mas rasgou-se o que foi pré determinado
E o plano se foi

Então, não me diga o que ou como pensar
Não me faça agir como mais um
“Escuta, te deixo ser?” Diria Clarice, “ deixa-me ser então”.

Se eu me calar, então outros falarão.

domingo, 3 de maio de 2009

PEQUENA CONFISSÃO FEMINISTA


Eu sempre olhei pra muitas meninas da minha idade e as achava sonhadoras demais, piegas demais.
Mas, hoje pensando em tudo que vi, vivi. Entendo, amargamente que talvez a mais piegas e a mais sonhadora seja eu.

Sempre me incomodei com o tipo de mulher que se contenta com um anel e que pensa que esse lá significa alguma coisa. Sempre quis arrancar os cabelos daquelas que se sentam e esperam seus preciosos maridos chegar a casa cheios de novidades rotineiras, enquanto nada têm para dizer a não ser sobre a louça, a casa, a roupa.

Nunca compreendi a necessidade de se ter ao lado alguém, pra mim, a necessidade é sempre vilã eu sempre acreditei na opção e por opção caminho.
Não entendo o véu e a grinalda, eu não entendo aquela barriga enorme, independente de quantos meses seja, sentada numa poltrona olhando a vida passar. Esperando em algum momento da vida receber gratidão pelo peso carregado por tanto tempo.
Não entendo as flores, o arroz que é jogado e o dia seguinte, não entendo.

Mas, outro dia percebi com maravilhosa angústia que elas também não me entendem. Não entendem meus livros, minhas roupas. Minhas falas elas não entendem. Meus palavrões e minhas idéias.
Eu não sou a verdade.
Eu não sou a mulher que queria ser.

Houve um tempo em que pensei ser isso um dom, algo realmente bom que me separasse e que me permitia ser independente da sociedade, da família, da igreja.
Mas, quando chega a noite e quando ela é fria, depois do trabalho e dos estudos, tudo me parece mais complexo. Outro dia li um trecho de Adélia Prado e ela diz :

“Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.”
“Mulher é desdobrável. Eu sou.”


Mas o que acontece é que eu devolvo o livro à estante, desligo o computador e estico as cobertas sobre o rosto. E ali, eu estou sozinha e a verdade é só essa.
Desdobrável e sozinha.
Deve haver alguma forma, um equilíbrio entre a feminista que queima roupas íntimas à aquela que se ajoelha como que diante de um rei.

Enquanto isso, a única coisa que consigo escrever neste post, como resposta as muitas perguntas que me fazem diariamente, é que não preciso de um anel, se precisasse compraria um. Não preciso do sustento ou do sobrenome de um homem. Não preciso de filhos. Não preciso de alguém que me diga o que fazer, o que vestir ou como agir, alguém para medir minhas palavras e que tente me moldar como um oleiro ao barro.

Eu odeio o verbo precisar e seu significado, mas, sou obrigada a admitir que o que todos precisamos é de alguém numa noite fria, alguém que esteja ali quando o livro for guardado.
Alguém que sutilmente me faça sentir que a necessidade pode ser amiga e que não se assuste comigo e essa minha mania de nunca dar satisfação a respeito dos meus pensamentos.

Enfim, alguém com quem eu não precise me fantasiar de noiva pra entender que o amor existe e que faça essa cerimônia que é tão sonhada por tantas, parecer pequena diante do que a vida guarda às pessoas que procuram algo pra sentir além do que ostentar.
Alguém que não fira o meu orgulho e que saiba que estou ali por amor, já que conveniência, ritual ou sobrenome, bom... nada disso me interessa.

Por essa e outras coisas sou obrigada a admitir que muitas vezes, sou muito mais sonhadora do que aquelas que acreditam que o amor é um conto de fadas e que sonham com a família feliz que a parece na novela das oito.
Já que como Clarice Lispector “procuro uma verdade inventada”, talvez eu busque alguém que não existe, uma união impossível e talvez eu devesse comprar mais livros.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

SÓ MAIS UM POUQUINHO






" Frequentemente eu sinto como se estivéssemos navegando cegamente. Que tal mudarmos nossos passos para consertar essa cena? "

Para quebrar o tédio, como diria uma amiga minha, resolvi começar este post com um vídeo. A música “Saving the world” da cantora australiana Brooke Fraser, que particularmente gosto muito. Ela trata de uma apatia tão próxima de nós, uma falta de ação, com relação a tudo que temos visto, que mora ao lado.

Veja, todos nós adoramos ver na TV novas reportagens sobre aquecimento global e coisas do tipo, ficamos semanas comentando, escandalizados quando uma tragédia acontece. Repassamos e-mails virais criticando grandes empresas que têm poluído e explorado o nosso mundinho. Mas a pergunta que não cala mesmo esta sendo velha é: O que você fez?

Todos, em algum momento da vida ouvimos certa historinha sobre um beija-flor que tenta apagar um incêndio na floresta onde vivia e que pegava fogo. Ele carregava pequenas porções de água em seu bico e consciente de sua pequenez tentava ao menos fazer o seu pouquinho, bom, é melhor que ficar parado.

Esses dias eu me perguntava, qual é o meu pouquinho e qual é o seu?
Hoje, muitas empresas têm feito alguma coisa pelo ambiente e o melhor é que muitas nos permitem colaborar de alguma forma também.
O meu pouquinho pode ser não comprar quase nenhum papel que não seja reciclável.
Consumir produtos que me permitam a possibilidade de refil, diminuindo o impacto que as embalagens plásticas causam no ambiente.

Ninguém precisa consumir carne todos os dias e nem fazer aquele churrasco todo fim de semana, consumindo menos carne, precisamos de menos animais e assim de menos pastos. Dessa forma podemos ficar com nossas florestas, certo?!
Dar um chega pra lá nas sacolas plásticas e caminhar um pouco é sempre bom e não mata ninguém.

Você pode pensar, que coisa mais chata e nada original e isso é verdade. Esse tema nada tem de original, essas considerações nos bombardeiam todos os dias e ainda sim, muito pouco ou quase nada é feito.
Outro dia uma pessoa me perguntou como eu tinha coragem de usar uma folha de caderno tão feia. Bom, eu acho minhas folhas recicladas lindas e sinceramente não há resposta para um comentário tão alienado e insensível.

Eu não sei como terminou a história do beija-flor, não me lembro se ele salvou a floresta ou não, se mobilizou os demais animais ou não. Mas, imagino que quando a noite chegou, ele se aconchegou em algum lugar pra dormir cansado de tanto trabalho e o sono veio leve e a consciência da exaustão pela luta no que acreditava.

Eu também não sei se o meu pouquinho conta muito, se com este post eu mobilizo alguém, o que eu sei é que quando as minhas costas encurvarem, quando eu não tiver mais forças pra trabalho algum, quero me aconchegar tranqüila em algum lugar, eu quero a exaustão de uma vida que valeu a pena e entender que fiz algo por aquilo em que acreditava.
E que a morte venha leve e tranqüila e que eu vá consciente de que nunca fui um peso morto aqui na terra.



Eu posso ficar parada e deixar que pessoas com cargos específicos resolvam, posso gastar minha energia jovem com outras coisas como a maioria faz. Eu posso me alienar e me preocupar mais comigo, por que não? Mas, acontece que eu não quero.


“Então o Senhor Deus pôs o homem no jardim do Éden, para cuidar dele”. Génesis 2:15 a ( grifo meu)

terça-feira, 28 de abril de 2009

PROCURA-SE TUDO



Eu to procurando um jeito de escrever que desagrade aos lingüistas tradicionais;
Procurando um jeito de brigar com a reforma ortográfica.
Eu to descobrindo uma forma de me vestir além do que madame Chanel disse que era bonito, e alguma coisa que não me faça parecer um outdoor que anda ou uma lata de refrigerante.
Estou tentando ler coisas que meu pai não gostaria que eu lesse, tentando falar coisas que talvez ele não gostasse de ouvir.
Olhando pra o que ninguém quis ver, observando o que me enoja.

Eu quero ouvir músicas que não tocam nas rádios, conhecer a voz de caras que a maioria não conhece, sei lá o porquê..talvez porque eles usam mais a cabeça que o corpo, porque eles pensam demais e requebram de menos ou até porque talvez eles cantem sobre coisas que incomodam.

Eu procuro amigos, mas não de qualquer tipo. Do tipo que não se importe com o que eu visto ou leio, do que me ame e só. E que me deixe amar também e só. Mesmo estando tudo diferente e de ponta cabeça, mesmo não havendo razão para amar, na verdade, nunca há.

Eu quero um trabalho onde eu possa ganhar dinheiro, mas que não me consuma inteira e que o dinheiro cheire bem, aquele cheiro de coisa bem-vinda e não de coisa roubada ou estragada pelo suor exagerado, pela palavra mal dita ou mal ouvida.
Eu procuro alguém que não me entenda e que nem queira, eu mesma desisti disso e nem preciso viu.

Eu gostaria de comer além do que os states colocaram aqui, conhecer a cultura além da que eles enxertaram.
Pisar em terras que me proibiram de pisar... Saber do perigo do qual me alertaram.

Eu to querendo não me parecer com a Barbie, tentando fazer do meu corpo, do meu rosto e cabelo algo apenas meu, encantamento sim, mas quero alguma coisa que uma boneca não reproduza e uma foto de revista não capture.
Nada digno de ser imitado, meu e só.

Eu to chamando por um Deus diferente daquele do qual me contaram coisas e daqueles que prenderam em imagens e me disseram “ajoelhe-se”. Um Deus que me ouça falar coisas que o deus deles não ouviria, um que me ame apenas e que seja meu. Não aquele dos púlpitos, mas, Aquele lá de casa, lá da rua e daqui de dentro.

Procuro ver com meus olhos esse mundo e esquecer tudo que já vi com olhos alheios, tudo que falei e que não era meu. Eu tenho fome das minhas palavras.

Procura-se uma vida que seja minha apenas, aquém da massa, aquém do todo e todos. Considerando que eu fazendo parte do todo, não sou esse. Posso então me aventurar a ser apenas eu e assim me ouvir, me ver e sentir, aquém do resto ou de você.
Procuro desculpar-me se isso ofende, sei que isso é muito difícil, me confunde.
Procuro não seguir, mas procuro e só.
Até quando? Sei lá.