segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ÉTICA

O texto é de Luiz Felipe Pondé. Conheci dias desses em uma aula e achei que seria bacana dividir por aqui. Espero que gostem.

DE FATO é muito feio dizer que as pessoas devem ser julgadas pelo que elas "servem". Mas, se o mundo está esmagado sob essa máxima funcional (as pessoas só valem quando "servem para alguma coisa"), ainda queremos que ela seja dita em voz baixa.

Muitas pessoas estão prontas para se indignar quando dizemos que alguém não "serve" para nada. Mas, no seu dia a dia, é esse mesmo jargão que rege seus atos. Talvez, essa máxima funcional deva vir embalada em bobagens como "tenho direito de ser feliz, por isso vou lhe abandonar, porque não vejo uso em você". Mas eu, que tenho uma vocação natural para iconoclastia (a arte de ir contra o "coro dos contentes" e não ter medo da opinião alheia, coisa rara num mundo intelectual que agoniza sob a bota do ressentimento dos ofendidos profissionais, a nova face da velha censura), não me contenho e penso em algumas situações onde a máxima "as pessoas só valem pelo que servem para as outras" decidiria nosso futuro. Quer ver um exemplo? O que diriam para uma jovem mulher (ou homem, tanto faz) caso seu marido (ou esposa) sofresse um acidente que o(a) deixasse inválido para a vida normal? Sem movimento, sem corpo, sem sexo, sem trabalho, sem vida, sem poder ir jantar fora, viajar ou ir ao cinema.

Será que alguém diria "fique ao lado dele até a morte"? Ou "abra mão do seu corpo, do seu movimento, do seu trabalho, do seu sexo, para cuidar dele"? Ou seria mais provável que ouvíssemos coisas do tipo: "Você tem direito de ser feliz, não sinta culpa". Ou, talvez, num modo mais espiritual: "Talvez ele tenha escolhido esta forma de provação, mas você não é obrigada a abrir mão da vida junto com ele". Ou ainda: "Antigamente você seria obrigada a aceitar isso como o fim da sua vida, mas ainda bem que hoje o mundo mudou e as pessoas têm o direito de buscar sua satisfação na vida sem ter que sentir culpa". A questão aqui em jogo é o caráter insuportável do dia a dia. A perda da liberdade de escolha na qual você é jogada por conta do acidente do outro.

A hipocrisia está em negarmos que o abandono como "direito à felicidade" está sustentado na inutilidade do outro para a sua felicidade. Talvez por conta de minha natureza arredia a festas, coquetéis e eventos, eu entre em agonia diante de tamanho papo furado. Você me pergunta: "Qual é o papo furado?". Respondo que o papo furado é negar que vivemos sob a tutela dessa moira cega que manda em nossa existência: só temos companhia quando "servimos" para algo. Claro que não há saída fácil para uma tragédia como essa (um acidente que destrua a vida de alguém com quem escolhemos viver junto), mas a saída começa por reconhecermos que você não tem saída. Abrir mão de sua vida é um suplício, mas o outro sabe que se tornou um estorvo em sua vida e que em algum momento terá que encarar o fato de que "não serve mais para nada". Terrível condição, escândalo insuperável. Seria o silêncio enquanto o abandonamos uma forma mais elegante de fugir? Talvez uma visita de vez em quando e uma boa enfermeira ao seu lado, paga por nós? A vida nos obriga a fazer escolhas terríveis, mas parece que agora decidimos que "tudo é bonito se dissermos que é bonito". Como nos contos de fadas. Mentira: nossas escolhas são pautadas pelo útil, nossos atos são calculados, nossos afetos são estratégicos. E a moderna ciência do egoísmo encontra as fórmulas para fazer isso tudo bonito. E o contrário disso não é a felicidade, mas a maturidade. Adultos infantis não gostam disso. Preferem ser avatares de si mesmos num mundo sempre florido.

A infantilização do mundo caminha a passos largos. Todos abraçam sua "mentira ética" como forma pessoal de marketing de comportamento. Como numa espécie de "lenda ética sobre si mesmo", queremos projetar de nós mesmos uma imagem de doçura que, na calada da noite, traímos. É nessa mesma calada da noite que acordo e peço a Deus que me faça não ver os outros apenas como "uso". Mas sempre fracasso. Não pensar nas pessoas apenas como objeto de uso é uma conquista dolorosa, como tirar leite de pedras.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

DESABAFAR É PRECISO

Sei, eu sei. Eu abandonei este blog.

Na verdade eu penso em escrever sempre, o tempo todo. Mas não tenho postado. Tenho em mim a sensação de que é tudo a mesma coisa, eu sempre reclamando de como é difícil não se adaptar ao que querem que você se adapte, sempre falando mal de algumas formas de manipulação e lutando contra mim mesma para não ser mais um, mais uma.

Ultimamente tudo me parece realmente igual. O mesmo inconformismo, a mesma revolta, o mesmo grito sem resposta.

Pra variar me apresentaram ao Chomsky. O que ele diz? Que há mais manipulação na imprensa do que sonhava nossa vã rebeldia, e que ainda que tentássemos fazer diferente, seria impossível, porque os meios desta manipulação estão intrínsecos, embutidos de forma a não nos deixar opção alguma.

Outro dia me perguntaram: Que sistema é essa no qual estamos inseridos? Pois é, eu também me pergunto. Como posso eu fazer algo além dele com tanta publicidade, futilidade, imbecilidade reinando por aí. Quem vai ouvir a minha voz, enquanto o Boticário lança uma linha nova de maquiagem ou aquela casa noturna contrata alguém de NYC. Acho que poucos ou ninguém.

Mas ainda não me ouvindo, eu continuo pensando, confabulando histórias, livros e meios de impedir que essas grades me suguem. Impedir que eu vire alguém vendendo sorrisos enquanto não faz nada pelo próximo, estou tentando, me arrastando em meio a multidão. As vezes me canso, me rendo também.

Inquietações me desarmam, me destroem.

Fui a um lugar ontem, comer eu acho. Um senhor de uns oitenta anos veio pedir pra olhar o carro em troca de uma moeda. Vi na TV a história de uma menina estuprada pelo tio e a do menino com ordem de despejo do casarão tomado à força pelos pais alegando ser classe média e ter uma vida perfeita. Vi um povo que elege humoristas e quase elege cantor de pagode para ser representado por eles. Ouvi falar dos fariseus vendendo milagres, professando uma fé oca e massificando sem piedade.

Então deixo a pergunta aos meus caros leitores: Que sistema é esse no qual estamos inseridos?

“Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho...

O que será, que será?
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos dos desvalidos
Em todos os sentidos...

Será, que será?
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido..”

...Chico Buarque...


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O REFÚGIO SECRETO DE CORRIE

“Precisamos de flores nas janelas”, disse. “Poremos caixas de flores em todas elas. Teremos que tirar o arame farpado, lógico; depois vamos pintar tudo. De verde. Verde claro brilhante – a cor das plantinhas novas, quando ressurgem na primavera.”

Extraído do livro “O Refugio Secreto”.

Esse é com certeza um dos meus livros preferidos. Conta a história de como uma família alemã escondeu muitos judeus que fugiam dos nazistas de Hitler. Eles tinham um pequeno quarto em casa, então Corrie, seu pai e sua irmã tiveram a idéia de colocar ali uma parede falsa com uma pequena e camuflada passagem e então, ficaram protegidos por um bom tempo judeus de várias idades e ambos os sexos.

Mas, não durou por todo o regime opressor essa condição, eles foram delatados ao serviço especial do ditador que prendia e oprimia aqueles que não eram considerados pertencentes à “raça pura”.

Corrie e sua família foram condenados aos mesmos absurdos pelos quais judeus foram, sofreram as mesmas dores, cansaço, fome e humilhação nos campos de trabalho forçado. O pai idoso não resistiu e morreu logo, a irmã veio depois. Então ficou Corrie sozinha?

Essa cristã, alemã, mulher tinha uma fé inabalável e uma folha da Bíblia, livro proibido naqueles dias, a qual lia em secreto e se fortalecia naquelas palavras.
Mais tarde, ao deixar aquele lugar Corrie fundou um Centro de Recuperação para vítimas dos centros de concentração. Mas era pouco. Ela fundou depois um centro para recuperar a saúde física e mental de ex soldados do regime nazistas.

Ela perdoou e ensinou o perdão, unindo mais tarde os dois locais em um. As vítimas de ambos os lados passaram a conviver no mesmo lugar, ensinando e aprendendo, afinal, em um regime totalitário todos são vítimas.
Através de seu testemunho de vida feito em parceria com John e Elizabeth Sherrill e publicado em 1971, ela tem espalhado mensagens de esperança e perdão a todo mundo através de seu livro.

Ela era alemã, ela tinha a tal da “raça pura” e não precisava passar por isso, mas porque passou? Só o amor ao próximo pode justificar determinadas atitudes. Esse, creio eu, é o verdadeiro significado de viver em sociedade, cada um ajudando com o peso do outro, compartilhando como irmãos o sal e o trigo.

Que refugio secreto eu posso criar para abrigar ou proteger (no sentido figurado, claro) alguém que realmente precise? Por amor ao próximo, o que eu posso fazer para pelo menos tentar resolver ou amenizar as coisas? Não se concentrar nos próprios probleminhas e um pouco de amor resolve, eu ainda acredito nisso.

Recomendo muito esse livro, há também o filme gente. Vale a pena.
Até o próximo post pueblo!


“Porque era assim que a humanidade devia ser de acordo com o plano divino: como os músicos de uma única orquestra, como os órgãos de um único corpo."
... C. S. Lewis...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

ALEGRIA

Quantas as noites é preciso chorar até que ela venha?
Quantas lágrimas serão recolhidas até que se sequem completamente?
Eu espero ardentemente até isso vir pra mim.

Eu vou pelo caminho jogando as sementes, regando com choro
E clamando pelos seus frutos.
Aguardando com paciência, até que Ele se incline pra mim.

Ele disse que ela está chegando, que o dia está nascendo
E que com a manhã haverá transformação.
Eu vou confiar.

Porque em Sua presença até a tristeza salta com ela.
Até os montes se movem e as grandes ondas se deitam com tranquilidade.
Ele me fará conhecer os caminhos da vida e com o próprio rosto me encherá com ela.
Secará com os seus dedos cada gota de tristeza.

Os mesmos dedos que formaram tudo que os olhos podem ver.
E então, será dia pleno.
Paz perfeita.
Completa alegria.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

ALGO SOBRE O ESPÍRITO


Existe algo sobre espiritualidade que quase nunca é falado. Alguns seres humanos não gostam muito de se expor. E revelar o que se sente sobre alguém que não se vê e não se ouve, no plano físico, pode parecer meio loucura, eu sei.

Mas esse algo do qual me refiro, vai muito além dos versículos citados em um lugar repleto de fiéis, além dos folhetos evangelísticos que jogam em nosso quintal e ainda mais das pessoas que tentam nos agarrar a força e nos jogar dentro das igrejas.

Eu falo daquele ponto, escondido no fundo do peito que ninguém nunca entendeu direito, ninguém nunca falou muito bem sobre isso. Aquela pequena dor, que fere e arde e ainda que pequena nos consome.
Eu sempre a senti.

Quando se desperta bem cedo e um vazio estranho se manifesta, você sabe, ele sempre esteve ali, mas há dias e momentos em que ele grita, uma fome que não vem do corpo, um estado em que não se tem o controle. O nome? Eu não sei, mas o conheço bem.
Então, você sente que nada do que tem ao seu alcance vai preencher e que se não correr isso pode sufocar, até que ponto? Eu também não sei.

Eu sei que corro, como um animal precisando de água corre às fontes mais puras, eu vou, com tudo o que tenho à fonte de minha existência, me preencher pra mais um dia, beber da Sua maravilhosa presença.

Esse ponto habita em todos. Acontece que alguns o reconhecem enquanto outros o tentam preencher com coisas que nunca poderão satisfazê-los completamente.

Como uma mãe que ainda com o cordão umbilical cortado permanece sempre ligada ao filho, eu tenho uma ligação eterna com Aquele que me fez, me formou ainda no ventre e escreveu meu nome e meus dias nas palmas de Suas mãos.

Preciso correr, está apontando de novo.

“Se eu encontrar em mim mesma
Desejos que nada neste mundo pode satisfazer,
Eu só posso concluir
Que eu não fui feita para este lugar...

...Fale comigo na luz da alvorada
Misericórdia vem com a manhã
Eu suspirarei e com toda a criação gemerei
Enquanto espero a esperança vir para mim.”

C.S. Lewis Song/ Brooke Fraser

segunda-feira, 21 de junho de 2010

ÀS MOSCAS II


E as moscas azuis continuam rondando.
Com seu zunido infernal anuviando meu cérebro
Tentando destruir a alegria de uma noite de paz.
Eu não sei o que elas querem...

Talvez atormentar, chantagear, despedaçar um coração já cozido.
Que depois de tanto ter temido, soluçado e esperneado,
Começa a sentir a leveza de dias suaves.

Esses animais peçonhentos
Tão sem pensamento, se alimentam do tormento de quem não se interessa por eles.
De quem vive além do quadro azul e escapou do falso mel a que se submetem.

Voem pra longe bichos imundos!
Vão atormentar o inferno
Voar sobre os seus altares mal cheirosos,
Tão brancos por fora, recheados de enxofre.

Porque em mim que já voei esse vôo,
vocês não pousam não.
Eu prefiro olhar os pássaros e bater as asas em direção ao norte.


“São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".

É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.

Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.”

...Insetos interiores/ TM...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

FORA DO TRILHO

Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.
...Manoel de Barros...


Sabe quando muita gente te procura pra dizer que você errou? Quando te olham estranho, como olhariam pra alguém em um manicômio? Ou quando ignoram a sua presença evitando qualquer palavra brusca temendo despertar algo ruim que segundo eles, vive em você?
Eu sei.

É estranho se sentir um peixe fora d’água ou uma borboleta em um aquário como na musica dos Engenheiros do Hawaii né?
É!

Mas ainda sim vale a pena.
Quando se pula o muro do comodismo a queda sempre machuca. Mas o tempo passa, a ferida sara e a alegria de uma realidade nova rompe as paredes do seu mundinho antes vulgar.

Aí então, quando se respira livremente e sente o calor de ser aquilo que se quer, a gente pensa: “demorei demais pra chegar aqui”.

Sim, eu passei por uns bocados ruins por ter coragem de fazer o que a maioria não tem.
Por fugir do altar. Por dizer não pra aquela estupidez toda que ninguém suporta mais. Por erguer o som, rasgar a saia, cortar o cabelo e atirar fora aquele jeito estranho. Por bisbilhotar o que não devia.
But I’ll survive e “se eu soubesse antes o que sei agora erraria tudo exatamente igual”. (Karmas & DNA)

Ontem uma alegria incomum perfurou meu peito, subiu pela garganta e pulou pra fora da boca. Então gritei, “oh Lord! Que bom que sempre fui meio rebelde”

“A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas.”

Manoel de Barros